09/02/2010 por Bruno Portella

O prazer é todo meu – Contos eróticos femininos compilados por Márcia Denser
‘O prazer é todo meu’ é uma coletânea compilada pela escritora Márcia Denser (que também empresta um dos seus para o volume) de contos eróticos escritos apenas por mulheres; dezenas delas. Datado de 1984 e tido como o sucessor de ‘Muito prazer’, este de 1982 e ‘um grande sucesso’ na época – parafraseando a contra-capa.
O problema básico de uma coletânea de contos é que, muito comumente, os contos não se conversam e, quando muito, se adequam em um mesmo assunto (este caso, por exemplo, em erotismo). Portanto, já sabe-se que ao fim de um conto, você não vai ter a continuação daquela história na próxima página – o que é bom para os contos ruins, mas ruim para os bons contos de onde queremos saber mais dos personagens e causos. O que é fato consumado é que, assim como os romances cortados por capítulos, o final de um interfere na sua gana em ir pra cima ou não do próximo.
A coletânea oscila horrores, mas prevalecem os contos mornos (quando não estão frios de tudo) e se estamos falando aqui de um volume que se pretende ser erótico, tudo abaixo do ‘pegando fogo’ perde sua força para a proposta – e pegando fogo não significam transas enlouquecidas como lerão mais pra frente. Toda compilação de textos (ainda mais de 17 autoras diferentes) deve ser assim se pensarmos bem; não dá pra agradar em sua totalidade todos os leitores, e talvez o grande trunfo de Márcia Denser seja o de ter construído um exemplar que agrade todos os gostos (femininos, imagino eu).
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04/02/2010 por Bruno Portella

William Bonner – Hoje à noite, um pouco antes do fechamento deste noticiário, um acidente trágico no aeroporto do Galeão, no Rio de Janeiro…
São Paulo, algumas horas antes do Jornal Nacional – e, sim, essa é uma história sobre tragédia.
Não há nada que se compare a um aeroporto. Não há nada que se compare a um aeroporto para uma primeira-viajante, debutante nessa história estranha de voar às toneladas de carbono. Anda decidida, sem dúvidas, o passo firme desce do taxi e entra na multidão misturando-se; sente-se ousada, o que é andar de ônibus para lá e para cá comparado com uma viagem pelos ares, sozinha, naquela idade? Tão nova, podia pensar de si mesma. Atravessa o saguão: perdida. Olha para os lados, tem na mão apenas a impressão do e-ticket e na cabeça a descrição: calça preta, carro branco – não sabe bem o que fazer com nenhuma das duas. Identifica um ajudante da sua companhia aérea e trata de descobrir ‘o que fazer agora’. Sabe, sou nova nesse negócio de voar e… sim. Aquela fila? Obrigada. Relê a passagem pela trigésima quarta vez, Congonhas – Santos Dumont.
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12/01/2010 por Bruno Portella

Um ônibus lotado de cheiro imundo de gente porca que deixava o transpiro fazer parte da pele sem um toque de água há dois ou três ou quatro ou cinco dias. Escolhi a janela, é claro; vento, paisagem rolando, vômitos e a saída de emergência daquela névoa de fedidão que se espalhava assentos a pairar. Segurava na mão o troco do livro, devida e insistentemente pago.
Sentou do meu lado, vazio sempre, um policial de farda cinza e porte esbelto, altivo com seu quepe de meter inveja aos desempregados que breve seriam mortos pelo pê-eme quando pegos roubando madames, ou trepando com árvores. Sentou do meu lado sem palavra e sem consciência, deixou sua maletinha de cabeças no compartimento de cima e simplesmente recostou e olhou o vazio dos três centímetros do estofado surrado do assento da frente.
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30/12/2009 por Bruno Portella

- Quanto tempo estamos aqui?
- Uma lua, quase.
- E quando vamos sair?
- Quando aquela árvore parar de olhar pra cá.
- Mas eu tô precisando aqui…
- Ora, faça aí mesmo.
- Mas ela tá olhando!
- Que mal tem a árvore olhar?
- A última coisa que quero é ofender essa árvore.
- Ofendida com o quê? Ora, tire logo essa luva e faça logo. E vê se não respinga pra cá.
- Óquei. Ela ainda tá olhando?
- Não. Tá de lero com uma flor.
- Rubens?
- O próprio. Ei. Ela tá de olho de novo. Já terminou aí?
- Já.
- Põe a luva!
- Desculpa.
- Olha, ela vai tirar um cochilo… vai dormir.
- A árvore?
- Sim.
- No sete a gente sai, tudo bem?
- Claro.
- Um.
- Mas ela tá dormindo mesmo?
- Dois.
- Responde!
- Sete! Vamos.
- Calma!!! Olha!
- O que foi?
- Ali no canto.
- Que que tem?
- Ó lá, a gazela do bico de pato.
- E daí?
- E daí que ela tá olhando.
Bruno Portella
Leia Também:
[Conto] Chego mais cedo em casa.
[Filme] Chego masi cedo em casa.
[Poema] Uma imagem, dois poemas
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26/10/2009 por Bruno Portella

“Viajar bem é pôr-se na estrada sem pensar direito, sem planejar muitas coisas, comprar o bilhete dobrado sem se importar com as consequências futuras.
A viagem pra Minas foi e será sempre recordada, parte grande ao fato de ter conhecido uma das pessoas mais célebres do circo de minha vida – Liège, o Pequeno Pássaro ruivo com certas manias e tíques azuis.
A estrada notívaga passou rápida e fria no meu inconstante sono; acordei já na entrada feia de Berzonte e poucos minutos depois já aportava na feia rodoviária. O aspecto moribundo dessa parte breve da viagem seria bruscamente substituída por tons fortes e bonitos do coração do país.
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09/09/2009 por Bruno Portella

Ali na cama, o suco de nosso sexo escorria de minha mão para suas costas e vice-versa; esfregava-lhe a fronte dos ombros com força, abraçava-a com quentura e terna adoração. A ebulição de sua pele e o cheiro de ‘te-quero’ do seu pescoço eram, naquele particular momento, o mais delicioso veneno que eu poderia sorver e provar enquanto escorria. As curvas do corpo, estas esquinas delicadas de seu rosto, o jeito empinado que o queixo se jogava à frente de seu pescoço carnudo. O colo maravilhoso, levemente salpicado de algumas pintas pequenas, todas danadinhas; sou amante do suspense, minha mão como o olho que vê o filme, apenas se insinua no delicado vale entre seus seios e então sobe em seu ombro onde faz a curva para seu braço leve e esguio – as unhas, no final destes braços, estão pintadas de um rosa apetitoso.
É inevitável não se deixar levar pelo rebolado de sua bunda, como posso deixar de tocá-la se sua própria mão repousava gentilmente em suas nádegas? Não. Ali eu acaricio sempre olhando para seu olho castanho-terra, castanho vivo. Se só observo o seu olho, é na verdade no sorriso que falha ao se conter que me admito a levar a mão para o meio de suas pernas. Não exatamente para dentro de seu sexo – como se eu não quisesse – mas para agarrar-lhe a virilha, no drama. Este leve gemido de quem deseja ser tocada e sabe que desejam lhe tocar e, ao mesmo tempo, nada acontece é o que lhe aparta a distância entre o frugal e o tesão animal. Não resisti um segundo mais que fosse e acariciei seus seios com delicadeza, onde, no fundo, queria lhe apertar com força os peitos do alimento – como um bebê alto e de pêlos no corpo, apertei-lhe o busto e sorvi o leite de seu prazer ali de seu bico rosa, é como se quanto mais o chupasse, mais louco por ela ficava, como se me alimentasse de fato de profundo desejo.
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31/08/2009 por Bruno Portella

Poesia e Prosa Selecionadas – William Blake [ Edição Bilíngue / Tradução e Posfácio de Paulo Vizioli ]
Não sou um homem feito para a poesia. Tenho medo sempre de dizer que não gosto de poesia por soar genérico, mas na grande maioria das vezes eu realmente não gosto; os versos não me tocam, não me balançam e muitas vezes eu nem entendo o que o poema quer dizer – existe essa corrente de poetas que escrevem coisas desconexas e as pessoas adoram, particularmente não consigo compreender a adoração.
Se me perguntam de um bom poeta que eu goste, eu diria aqueles que eu conheço: Dione, que escreve neste Sanduba, ou Ninil que conheci em uma oficina; se me pedissem para citar qualquer outro que não conhecesse, não saberia indicar – talvez Gil Vicente, e já nem sei se o homem fazia poema, de qualquer forma é ele quem eu indicaria. Talvez alguma coisinha de Poe e pronto.
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24/08/2009 por Bruno Portella

A paisagem passa em rápido frenesi no vidro sujo, revelando sempre maravilhosas formas e poucos matizes a correrem de mãos dadas. Catedrais e prostíbulos, templos de descarrego perto uns dos outros; velhos cortiços, novos cinemas, antigos teatros e novos templos de deus Mercado. Preto e branco, o bugre rubro e o china amarelo, o cafuzo e a cabocla, aquele homem e seu cachorro; às vezes todos misturando-se em uma raça única, híbrida, sem face, sem nome e sem cor.
E quando cansamos de olhar pra fora e deitamos o olhar para dentro do móvel, não se vê nada diferente – talvez apenas mais caótico pela proximidade de faces.
Pessoas – alguns cães, é verdade – se amontoam e fedem juntas enquanto se penduram em corrimões acima de suas cabeças. Vejo, em cada elemento dessa matilha, algo diferente. Recrio para cada cão uma história fascinante de sua própria vida; apenas na conversa com seu corpo, na observação de que seus braços dizem ou o que seus sobrolhos reclamam. Jamais me importei em saber do que realmente se tratava a vida de cada uma daquelas pessoas – cães? É apenas delicioso imaginar o que aquela mulher de cabelos crespos e mal ajeitados usando um vestido roto e rosa com uma pequena bolsa branca está pensando, ou apenas para onde estará indo. Parece se vestir de maneira elegante para o seu cotidiano sujo; imagino, então, como seria ela em sua própria suja casa junto ao marido gordo, se tivesse um.
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17/08/2009 por Ana Majorca

A: Como você prefere seu queijo ralado? Quero dizer, você compra no saquinho, daquele que já vem pronto, ou usa um ralador?
B: [murmúrios]
A: É e-x-a-t-a-m-e-n-t-e o que eu penso, te juro. A gente não poderia tá mais de acordo. Tudo bem se você vai só tomar uma sopinha antes de dormir, uma coisa ordinária, e não está (digamos) devidamente preparado. Vamos supor que você só tenha queijo gorgonzola na geladeira. Entende o que eu tô te dizendo? Não dá para usar gorgonzola ralado, cara. Isso embora eu ame gorgonzola, que fique claro. Ou então você não tem sequer um ralador de queijo em casa. Ou simplesmente não está com o ralador de queijo certo para deixar os fiapos do jeito que você precisa. O que, veja bem, não é o nosso caso. Agora, se você vai degustar aquela pasta, ah, rapaz, daí você precisa ralar seu próprio queijo, e vai precisar dele em pedacinhos, não em pó. Não tem nada mais ridículo hoje em dia, nada mais deprimente gastronomicamente falando, do que ir a um restaurante e pedir um tagliatelle com molho ao sugo no capricho e ter de decorar o bendito do teu prato com aquilo que eles chamam de queijo, aquela porcariazinha incolor, inodora e inofensiva que sai de dentro desses pacotinhos plásticos. “Que merda é essa, areia pra gato mijar?”, tenho vontade de perguntar. Por que nós, brasileiros, gostamos tanto de nos enganar à mesa? Falando assim, pode parecer que eu não passo de um esnobe que acredita ter o paladar mais apurado do mundo. Nada disso! Odeio cozinha pedante. Para mim, Deus está no pão com manteiga , mas versar sobre cozinha é versar sobre a vida. Entende o que eu tô te dizendo? Passo horas refletindo sobre a sensação de prazer que temos com o aparecimento do prato principal no raio da nossa visão – uma mistura do gozo estético com manutenção da sobrevivência, algo humano e animal ao mesmo tempo. Isso sem falar de como o mais insignificante ingrediente pode mudar o contexto de sabores ao seu redor, uma metáfora simples para liquidez do nosso dia-a-dia, de como todos nossos atos, opiniões, pensamentos, discursos e amores são condicionais, mutáveis. Sei o que você está pensando: mais um maluco, um filósofo gastronômico. Aceito; mas de forma alguma sou um esnobe. Agora, o que me deixa pê da vida é que eles, esses lugares do queijo ralado arenoso, ainda têm a pachorra de se antointitularem da “típica cozinha italiana”. Só peço para que me poupem de propaganda enganosa, você não acha que é mais fácil viver sem a sensação de estar sendo enganado? Não é preciso ser um mafioso ou da famiglia para sacar que esses estabelecimentos não possuem mais experiência com spaghettis do que o meu filho no manejo de uma tijela de miojo… a propósito, você tem filhos?
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12/08/2009 por Bruno Portella

‘O Castelo’ de Franz Kafka me foi um presente de natal que, diante da fila de literatos, apenas pude ler agora nas férias de Julho. Kafka, eu já sabia, era um cara estranho – tido como louco por uns dois que me viram lendo o livro. Decidi ir atrás de sua biografia pra sacar um pouco e entender de onde vem essa estranheza que eu percebia e a loucura que dele percebiam. Tcheco e judeu, vivia em um país cristão e preste a dominar-se pela Alemanha – era, portanto, a minoria da minoria e, desde sempre, conheceu o isolamento. Não somente dessa sociedade que não o aceitava por sua ascendência, mas também dentro de casa, em que reconhecia os elementos de sua família unidos apenas por interesses maiores – seu pai, inclusive, tido como culpado pelo próprio Kafka como grande parte de seus demônios; está aí o livro ‘Carta ao Pai’ de 1919 que é, tão somente, o que o título indica: uma carta ao pai com mais de 200 páginas.
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