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bird

“Viajar bem é pôr-se na estrada sem pensar direito, sem planejar muitas coisas, comprar o bilhete dobrado sem se importar com as consequências futuras.

A viagem pra Minas foi e será sempre recordada, parte grande ao fato de ter conhecido uma das pessoas mais célebres do circo de minha vida – Liège, o Pequeno Pássaro ruivo com certas manias e tíques azuis.

A estrada notívaga passou rápida e fria no meu inconstante sono; acordei já na entrada feia de Berzonte e poucos minutos depois já aportava na feia rodoviária. O aspecto moribundo dessa parte breve da viagem seria bruscamente substituída por tons fortes e bonitos do coração do país.

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protego

Ali na cama, o suco de nosso sexo escorria de minha mão para suas costas e vice-versa; esfregava-lhe a fronte dos ombros com força, abraçava-a com quentura e terna adoração. A ebulição de sua pele e o cheiro de ‘te-quero’ do seu pescoço eram, naquele particular momento, o mais delicioso veneno que eu poderia sorver e provar enquanto escorria. As curvas do corpo, estas esquinas delicadas de seu rosto, o jeito empinado que o queixo se jogava à frente de seu pescoço carnudo. O colo maravilhoso, levemente salpicado de algumas pintas pequenas, todas danadinhas; sou amante do suspense, minha mão como o olho que vê o filme, apenas se insinua no delicado vale entre seus seios e então sobe em seu ombro onde faz a curva para seu braço leve e esguio – as unhas, no final destes braços, estão pintadas de um rosa apetitoso.

É inevitável não se deixar levar pelo rebolado de sua bunda, como posso deixar de tocá-la se sua própria mão repousava gentilmente em suas nádegas? Não. Ali eu acaricio sempre olhando para seu olho castanho-terra, castanho vivo. Se só observo o seu olho, é na verdade no sorriso que falha ao se conter que me admito a levar a mão para o meio de suas pernas. Não exatamente para dentro de seu sexo – como se eu não quisesse – mas para agarrar-lhe a virilha, no drama. Este leve gemido de quem deseja ser tocada e sabe que desejam lhe tocar e, ao mesmo tempo, nada acontece é o que lhe aparta a distância entre o frugal e o tesão animal. Não resisti um segundo mais que fosse e acariciei seus seios com delicadeza, onde, no fundo, queria lhe apertar com força os peitos do alimento – como um bebê alto e de pêlos no corpo, apertei-lhe o busto e sorvi o leite de seu prazer ali de seu bico rosa, é como se quanto mais o chupasse, mais louco por ela ficava, como se me alimentasse de fato de profundo desejo.

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Poesia e Prosa Selecionadas – William Blake [ Edição Bilíngue / Tradução e Posfácio de Paulo Vizioli ]

Não sou um homem feito para a poesia. Tenho medo sempre de dizer que não gosto de poesia por soar genérico, mas na grande maioria das vezes eu realmente não gosto; os versos não me tocam, não me balançam e muitas vezes eu nem entendo o que o poema quer dizer – existe essa corrente de poetas que escrevem coisas desconexas e as pessoas adoram, particularmente não consigo compreender a adoração.

Se me perguntam de um bom poeta que eu goste, eu diria aqueles que eu conheço: Dione, que escreve neste Sanduba, ou Ninil que conheci em uma oficina; se me pedissem para citar qualquer outro que não conhecesse, não saberia indicar – talvez Gil Vicente, e já nem sei se o homem fazia poema, de qualquer forma é ele quem eu indicaria. Talvez alguma coisinha de Poe e pronto.

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A paisagem passa em rápido frenesi no vidro sujo, revelando sempre maravilhosas formas e poucos matizes a correrem de mãos dadas. Catedrais e prostíbulos, templos de descarrego perto uns dos outros; velhos cortiços, novos cinemas, antigos teatros e novos templos de deus Mercado. Preto e branco, o bugre rubro e o china amarelo, o cafuzo e a cabocla, aquele homem e seu cachorro; às vezes todos misturando-se em uma raça única, híbrida, sem face, sem nome e sem cor.

E quando cansamos de olhar pra fora e deitamos o olhar para dentro do móvel, não se vê nada diferente – talvez apenas mais caótico pela proximidade de faces.

Pessoas – alguns cães, é verdade – se amontoam e fedem juntas enquanto se penduram em corrimões acima de suas cabeças. Vejo, em cada elemento dessa matilha, algo diferente. Recrio para cada cão uma história fascinante de sua própria vida; apenas na conversa com seu corpo, na observação de que seus braços dizem ou o que seus sobrolhos reclamam. Jamais me importei em saber do que realmente se tratava a vida de cada uma daquelas pessoas – cães? É apenas delicioso imaginar o que aquela mulher de cabelos crespos e mal ajeitados usando um vestido roto e rosa com uma pequena bolsa branca está pensando, ou apenas para onde estará indo. Parece se vestir de maneira elegante para o seu cotidiano sujo; imagino, então, como seria ela em sua própria suja casa junto ao marido gordo, se tivesse um.

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‘O Castelo’ de Franz Kafka me foi um presente de natal que, diante da fila de literatos, apenas pude ler agora nas férias de Julho. Kafka, eu já sabia, era um cara estranho – tido como louco por uns dois que me viram lendo o livro. Decidi ir atrás de sua biografia pra sacar um pouco e entender de onde vem essa estranheza que eu percebia e a loucura que dele percebiam. Tcheco e judeu, vivia em um país cristão e preste a dominar-se pela Alemanha – era, portanto, a minoria da minoria e, desde sempre, conheceu o isolamento. Não somente dessa sociedade que não o aceitava por sua ascendência, mas também dentro de casa, em que reconhecia os elementos de sua família unidos apenas por interesses maiores – seu pai, inclusive, tido como culpado pelo próprio Kafka como grande parte de seus demônios; está aí o livro ‘Carta ao Pai’ de 1919 que é, tão somente, o que o título indica: uma carta ao pai com mais de 200 páginas.

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RIP

Laca

Gemendo feito uma vaca
Em retrato de tinta e laca
Morreu gozando na noite
Sem ter um homem de açoite
Com tanto ardor a alma não pode
E assim, sem carência de alarde,
Disparada no peito que explode,
Partiu sem ser cedo ou tarde

PQParalelo

Nesse rejunte de cimento e vida
Descarga filosófica mal-feita e partida
Passam pegadas apressadas de rotina
Pisoteiam torso, pescoço, vagina
Deixo os dejetos do ser que se pariu
Sem ver por onde, nem quando, ressurgiu
Que com sabor ocre de um sinal amarelo
Mandou o ex-humano pra PQParalelo
E nesse jogo de damas feito de cacos
Onde já somos todos viciados velhacos
Na casa do início meu pino coloquei
E sem jogar dados
nos quadros
me embrenhei.

por Dione Seward

naufragio

Aquela coisa sabia nadar quando caiu no mar.

E afundou novamente, como tantas vezes; igual uma pedra.

O mais incrível é que ela sabia nadar, já tinha aprendido.

Mas ela deixou-se afundar, ainda que não quisesse afundar. Dessa vez ela queria ser salva.

Mas é tão estranha a situação, pois ela sabe que é quase impossivel ela ser salva. Mas certificou-se de que, cada vez que ela nada à superfície e se salva, um efeito colateral surge. Ela entra cada vez mais para dentro da sua própria carne e esquece que existem mais pessoas no mundo; no seus afogamentos ela nunca via ninguém para, de fato, pular, pegá-la e faze-la voltar a respirar.

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harry-potter-and-the-deathly-hallows-02

A septologia de Harry Potter é uma daquelas séries arrebatadoras, feitas na medida do vício e da idolatria.

Adotando um mundo bruxo paralelo ao nosso, escondido de todos nós trouxas, Rowling cria uma fantasia tão colorida e fascinante que é difícil não se deslumbrar com as excentricidades dos livros. Os livros, que começaram a ser publicados em 1997 e só findaram dez anos depois, compõem uma verdadeira ascendente em torno do seu protagonista.

Dispenso a sinopse da história, todos a devem conhecer.

Seus quatro primeiros livros são emblemáticos. Lançados ano a ano de 97 a 2000 foram aqueles que antecederam o primeiro filme (e não vou entrar no mérito destes) e são, de longe, os mais inocentes de todos, embora sejam muito mais coesos entre si do que os três posteriores. A cada livro lançado (ou ano letivo de Harry), a publicação ganha em páginas e seriedade – amadurescendo junto de seus personagens.

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Gaivota

Há poucos metros, silenciosa. Daquelas que você jura que pode, a qualquer momento, puxar uma faca ou aquela arma banal e assaltar de homicida metade do andar. Mas aí você repara que metade do andar poderia fazer isso. Aí você se dá conta (e pior, reprime) que você mesmo poderia fazer isso.

Era esta a remetente e destinatária de cartas minhas nos últimos seis meses.

Mas eu não sabia.

Arrasado, faz apenas dois dias que me dei conta. Ela, pobre coitada, não faz idéia. Aquela de textos delicados ou não, aquela de bom humor – talvez completamente diferente da realidade. Não houve tempo suficiente para acertar como era; se loura, morena, ruiva, se 50 ou 15 anos, se realmente mulher. Era passear de bruxa a lolita em semanas; como era? Leitora forçada de minha própria vil publicidade literária confessou apenas não ser delicada. Duvidei. E então, de assalto, ela está no seu andar – no meu, no caso. Quiçá trocamos palavras sem notar.

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From: colegadetrabalho@empresa.com.br

To: colegadetrabalho@empresa.com.br

Subject: RES: RES: SOLICITAÇÃO DE INFORMAÇÕES RELATÓRIO TRIMESTRAL – APROVAÇÃO FINAL

Date: Mon, 1 Jun 2009 08:31:01 -0300

Sei que não temos intimidade suficiente, mas tem coisas que precisam ser ditas.
Sonhei que transávamos.
Havia cheiros, gostos, olhares, gemidos.
Todos os fetiches satisfeitos e bem-feitos.
Havia o nunca gozar o suficiente para ter fim.
Foi o nítido sonho real onde só falta mesmo a lubrificação do acordar. Que foi feita, como sempre, raspando o despertador.
Por isso, passarei o dia sem coragem de olhar na sua cara, mesmo na reunião mais séria.
Sem mais para o momento, bom dia.

Dione Seward

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