
“Viajar bem é pôr-se na estrada sem pensar direito, sem planejar muitas coisas, comprar o bilhete dobrado sem se importar com as consequências futuras.
A viagem pra Minas foi e será sempre recordada, parte grande ao fato de ter conhecido uma das pessoas mais célebres do circo de minha vida – Liège, o Pequeno Pássaro ruivo com certas manias e tíques azuis.
A estrada notívaga passou rápida e fria no meu inconstante sono; acordei já na entrada feia de Berzonte e poucos minutos depois já aportava na feia rodoviária. O aspecto moribundo dessa parte breve da viagem seria bruscamente substituída por tons fortes e bonitos do coração do país.
Ensaiando me perder, acabei, de fato, me perdendo, mas a atenção da pequena me notou antes de qualquer desastre e junto de uma amiga ela apareceu e me levou pra casa. Algumas palavras vacilantes aqui, sorrisos estranhos e tensos ali – não era de hoje que eu a conhecia, não. Já faziam quase dez anos, como eu costumava falar para as outras pessoas, embora jamais soubesse o ano e os anos de forma correta.
O fim de semana passou lenta e rapidamente, de forma ambígua e especial. Não houve acontecimento nenhum diferente, passamos o dia conversando – parte suma de nossa relação – assistindo filmes aos milhares, ou passeando em passos preguiçosos pelas ruas cansativas da capital mineira.
Liege é daquelas pessoas diferentes da vida. Pronuncia-se Liége, com um ‘e’ bem aberto. Seu humor é incrível e sua personalidade, cativante – se dentro de uma caixa de fios e chips ela já era alguém notável, quando toma carne e osso para suas expressões torna-se radiante. Diferente. Talvez diferente é a palavra que a melhor define.
Sabe aquela sensação de surpresa que temos ao ver algo que se comporta de maneira inesperada? A cada virada de olhos, ou comentário era inesperado – não por esperar algo diferente, mas por não saber o que esperar.
Sei de meu principal defeito: tornar as coisas cinematográficas demais ou dar valor excessivo à coisas que, talvez não tenham valor algum – mas foi de suma importância os cinco dias que passei ao lado de uma das pessoas que mais valorizo na vida.
Ela me deu suporte em diversos momentos difíceis e por muito tempo figurava no vazio que a falta de amigos me ocasionava. Mas enfim… Passado fica, e o presente me presenteou com uma pessoa de carne e osso, não mais meros estímulos eletrônicos filosóficos.
Foram cinco dias em que ela não se preocupou em nada comigo, não ficou cuidando da visita como é costume ficar, e isso foi algo perfeito da parte dela, me senti bem assim sem tantos mimos que hospedeiros costumam dar. Alia-se à isso sua família cativante e temos um feriado completo – com passeios turísticos e boas risadas.
Conhecer você Liege, foi um dos grandes momentos pessoais. Sim, sou nostálgico, mas é assim que eu sou… Fico feliz de ouvir sua voz e notar como vira os olhos, ou como simplesmente pira ouvindo Coldplay.”
2 de Junho, 2008

Liege
Essa semana, me deixou uma de minhas maiores inspirações e amiga. Deixo aqui registrado um texto da época que tirei um feriado para conhecê-la. À época, não escrevia neste sanduba.
Um pássaro enjaulado. Agora liberto. Ela, que oscilava entre RedBird e BlackBird, descobriu-se, talvez, ser mais adequado se tornar FreeBird.
Não escreverei mais sobre ela, pois farei quando estiver menos arrebatado.
Bruno Portella
Leia também:
[ Conto ] Naufrágio de Liege Simon
Descreveu muito bem. Agora ela é livre, não é?
Tudo o que sempre quis.
Vi seu blog no scrapbook dela e vim fuçar.
Força para nós que ficamos, e para o mundo que perdeu tanto, tanto.
Triste, certamente. Feliz daquele que sabe lidar bem com a morte. Creia-me: existem pessoas que sabem fazer isso, mas é preciso muita fé e isso é um dom para poucos.
Não falarei de liberdade, pois não estou certa de que acredito nisso. Só espero que ela esteja melhor do que no inferno que – acho – julgava viver.